SOLDADOS DA BORRACHA: Os heróis esquecidos na Amazônia legal na era vargas

O propósito deste artigo é analisar a trama política de aliança, que resultou no Acordo de Washington, assinado em 1942 entre Brasil e os Estados Unidos para o fornecimento de borracha, matéria-prima que seria utilizada no abastecimento da indústria bélica norte-americana.

O governo de Getúlio Vargas, por sua vez, estimulou o deslocamento interno de trabalhadores em direção a região Norte do país, sendo chamados de “soldados da borracha”.

O recrutamento dessa mão de obra foi o fator primordial para abastecimento e desdobramento dessa árdua operação em tempo de guerra na selva amazônica.

Para isso, a propaganda oficial foi uma das estratégias fundamentais utilizadas pelo governo brasileiro na ajuda de uma Campanha Nacional da extração da borracha. Foram criados órgãos e instituições para mobilizar soldados da borracha, cuja finalidade era atender as necessidades da Nação.

Jean Pierre Chabloz era um artista plástico suíço, sendo o elemento fundamental para a divulgação da propaganda imagética da Campanha Nacional do Látex. Os cartazes com desenhos informativos aos candidatos a soldado da borracha expressavam uma natureza domesticada, com títulos que enalteciam a fartura da floresta ou a importância da borracha como esforço de guerra.

Desenvolvimento

A saga dos Soldados da Borracha é uma das mais belas páginas da história do Brasil, marcada pelo heroísmo, pela dedicação, por uma determinação que encontra raros paralelos em outros países.

Apesar dessa grandeza, a história desses soldados ainda é pouco conhecida, especialmente, pelos próprios habitantes da região Amazônica, e pouco explorada do ponto de vista científico. Isso implica dizer que existe todo um manancial de objetos de pesquisa, seja no campo político, social e cultural ou até mesmo histórico, que não é aproveitado em sua plenitude.

Esse episódio teve início em 1942, quando o governo dos Estados Unidos estabeleceu alguns convênios bilaterais com intuito de implementar programas de saúde, nutrição e saneamento em áreas onde eram instaladas bases militares norte-americanas e em regiões produtoras de matérias-primas estratégicas para indústria bélica daquele país.

Entre as matérias-primas, a borracha vegetal era a mais importante, pois o fornecimento havia sido cortado pela ofensiva japonesa no Extremo Oriente. O Império do Japão obteve uma surpreendente capacidade de resistência, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos iniciavam uma contraofensiva no segundo semestre de 1942.

Em função da urgência, o governo brasileiro acabou resolvendo alguns problemas, como retomar a produção de borracha, repovoamento da Amazônia e a crise do campesinato provocado pela seca no Nordeste.

Dessa forma, seria organizada uma Campanha Nacional com objetivo de encaminhar milhares de trabalhadores para Amazônia. O presidente Getúlio Vargas equiparou o trabalho nos seringais ao serviço militar obrigatório. Esses trabalhadores, ou Soldados da Borracha, tinham como objetivo a extração da matéria-prima necessária ao consumo interno e externo, devido ao acordo firmado com os Estados Unidos.

Antes desse documento, existia uma relação entre Brasil-Alemanha que ganhava um aspecto de complementaridade econômica, estimulando o comércio entre as duas nações. Em 1936 os dois países assinaram um acordo comercial, no qual o Brasil reconheceu o sistema de quotas e aceitou o subsídio às exportações alemãs, formalizando um comércio bilateral que se ampliava.

Dessa forma, a Alemanha poderia adquirir produtos agrícolas e matérias-primas primordiais às suas indústrias e à sua economia, utilizando-se de um sistema de trocas que garantisse um saldo de divisa a seu favor, alijando dessas relações comerciais o princípio de liber alismo.

O Brasil, por sua vez, procurava escoar seus excedentes de produção e tinha grande interesse nos materiais bélicos alemães e nos produtos de consumo mais recentes, como era o caso dos aparelhos de rádio, que passaram a alterar, sensivelmente, o cotidiano da população brasileira.

Aos poucos, o Brasil tornou-se um importante parceiro comercial da Alemanha, ultrapassando os Estados Unidos como o principal fornecedor de algodão para aquele país já no ano de 1937. O algodão era uma matéria-prima de suma importância estratégica, sendo utilizado na fabricação de camisas, uniformes, munição e bandagens de uso hospitalar.

O Brasil era o único país a produzir todos os tipos de fibras de algodão para o comércio internacional. Com o bloqueio marítimo decretado pela Grã-Bretanha contra a Alemanha em 1940, o intercâmbio comercial acabou sendo prejudicado, conforme citado por Francisco Luiz Corsi:

“A guerra fechou a possibilidade de uma maior aproximação com a Alemanha no momento em que o Brasil perdeu boa parte dos mercados europeus, ficando vulnerável às pressões norte-americanas”.

No início da II Guerra Mundial, o governo brasileiro tinha uma postura de neutralidade, mantendo uma política equidistante da guerra, sempre discursada pelo presidente Getúlio Vargas.

A finalidade era procurar reestruturar sua economia ao máximo por meio do comércio compensado com a Alemanha sem afastar-se das relações comerciais com os Estados Unidos.

No decorrer do conflito, intensificou-se a pressão de setores internos brasileiros temerosos de um rompimento com os EUA e da influência e do perigo representados pelos imigrantes alemães e seus descendentes, voltados para a causa nazista, que poderiam comprometer a integridade nacional.

Nesse sentido, o alinhamento do Brasil com os Estados Unidos con sagrou-se com a inauguração de uma nova fase na política empreendida pelo Itamaraty e uma nova inserção do Brasil no cenário internacional. Conforme entrevista de Neves M. V. ao jornal do Acre:

“Além de não conseguir conter a ofensiva alemã, os países aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias-primas estratégicas. E nenhuma situação era mais preocupante do que a da borracha, cujas reservas estavam tão baixas que o governo americano se viu obrigado a tomar uma série de duras medidas internas. Toda a borracha disponível deveria ser utilizada somente pela máquina de guerra. A entrada do Japão no conflito, a partir do ataque de Pearl Harbor, impôs o bloqueio definitivo dos produtores de borracha. Já no princípio de 1942, o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras asiática s, tornando crítica a disponibilidade da borracha para a indústria bélica dos aliados. (NEVES, 2005, p.l)”

O ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, promoveu uma política gradual, mas com uma contínua e sistemática aproximação do governo brasileiro com Estados Unidos.

Essa aproximação se deu com a assinatura de importantes acordos comerciais, que acabou levando à colaboração entre os dois países na área militar e, por fim, ao próprio alinhamento brasileiro com o governo americano durante o conflito.

Esses acordos políticos concretizavam os rumos da política externa brasileira ao determinar a venda de matérias-primas aos Estados Unidos em troca de apoio técnico norte-americano em diversas áreas, principalmente a militar. Assi m firma Frank D. McCann Jr., no seu livro Aliança Brasil-Estados Unidos.

“Com muita emoção, Aranha dirigiu-se aos delegados. Declarou que a Conferência era uma decidida vitória da democracia e a “maior afirmação histórica” de sua “imortalidade”. Em meios a aplausos e vivas anunciou que as relações do Brasil com o eixo estavam cortadas. Mesmo neste momento de glória, havia algo lembrando o preço da vitória de Aranha; Dutra ainda não havia se decidido e a cadeira a ele reservada estava vazia (McCANN,1995, p. 208)”.

Após a assinatura do acordo, o governo brasileiro começa adotar algumas medidas políticas de recrutamento dos soldados para atuar no [ront amazônico. O suíço Georges Rabinovitch, que trabalhava em favor dos interesses americanos na então recém-declarada “Batalha da Borracha”, teve a ideia de chamar o artista plástico Jean-Pierre Chabloz.

Publicitário, crítico de arte, músico e agitador cultural, Chabloz recebeu o convite para atuar como desenhista publicitário na divisão de propaganda do Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), órgão governamental criado em novembro de 1942, no bojo dos domínios da Comissão de Mobilização Econômica (CME).

As propagandas ideológicas de Chabloz visavam arregimentar nordestinos para trabalhar na reativação dos seringais amazônicos. Já a propaganda oficial alardeava que os Soldados da Borracha seriam heróis de guerra tão importantes quanto aqueles que iriam para o [roni europeu.

O exército da borracha tinha a missão vital de salvar os países aliados do colapso, fornecendo a matéria-prima estratégica para a indústria bélica. O presidente Getúlio Vargas, estrategicamente, utilizou a imprensa para a militarização da sociedade e invocar sentimentos patrióticos como mostra a mensagem presidencial publicada no jornal do Acre em maio de 1943:

“Seringueiros’ Dediquei todas as energias à batalha de borracha. Precisamos de mais borracha, pois é sobre ela que se encontra a guerra moderna. Pois são grandes os equipamentos que necessitam da goma elástica, produzidas sem repouso, [ … ] Nas guerras modernas não fazem parte somente soldados que estão no campo de batalha, mas, toda a nação: homens mulheres, velhos e crianças. E vós, desbravadores da Amazônia, sois mais importantes soldados; unidos veremos sibilar a bandeira do Brasil. Gorna] O Acre, 1943, n? 742 Rio Branco-AC)”.

O artista também se utilizou de outros artifícios de menor sofisticação, apresentando o homem como figura central da atividade, explorando alguns elementos do imaginário, dos desejos e das emoções, por meio de sfrnbolos e de um discurso direto e apelativo.

A medida desencadeará uma corrente migratória dentro do país. A jornada que esses homens e suas famílias faziam da caatinga nordestina até a mata fechada da Amazônia foi muito desgastante.

A mobilização foi revestida de força simbólica e coercitiva, que naquele momento possibilitava o renascimento do mito do eldorado amazônico “a terra da fartura”, onde o leite valioso da seringueira brotava aos borbotões, gerando riquezas incomensuráveis.

A “borracha para vitória”, expressão muito utilizada no período, era o bordão de mobilização da propaganda oficial que garantia passagem grátis ao alistado, inclusive, distribuindo equipamentos de viagem.

N a prática, entretanto, o contrato de trabalho assinado entre seringalista e soldado da borracha quase nunca foi respeitado, a não ser para assegurar os direitos dos seringalistas, como no caso da cláusula que impedia o seringueiro de abandonar o seringal enquanto não saldasse sua dívida com o patrão.

Para viabilizar essa migração, vários órgãos e instituições foram criados no que tange ao fio SESP tinha a incumbência de fornecer assistência médica às famílias migrantes e aos trabalhadores nas estações e alojamentos do DNI e do SEMTA, e de inspecionar as condições sanitárias desses locais. Cabia ainda aos m&ea cute;dicos do SESP determinar, com base em critérios bastante rigorosos, se os homens recrutados estavam fisicamente aptos para trabalhar nos seringais.

Em setembro de 1943, foi criada, pelo Decreto-Lei nº 5.813, a Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para Amazônia (CAETA), substituindo as agências responsáveis pelo recrutamento da mão de obra na Amazônia.

Sob a jurisdição da CCAW, esta adotou uma política seletiva para o encaminhamento de trabalhadores para empresa extrativista. A preferência passou a ser dada aos nordestinos recrutados com suas famílias nas áreas atingidas pela seca.

O recruta era submetido ao adestramento e militarização, para tornar-se produtivo, disciplinado, moralizado e ágil. Os exercícios utilizados para essa militarização de emergência eram realizados nas quadras de esporte dos quartéis.

O recruta, além de praticar exercícios físicos, também recebia orientações sobre higiene e era submetido a exames médicos. Esses procedimentos permitiam confundir a condição de trabalhador com a de soldado, e os seringais com o campo de batalha, propiciando a implantação da disciplina militar, que os submetia aos preceitos regulares e obediência sem hesitação aos chefes.

Nos postos de alistamento, eram colocados diariamente inúmeros cartazes, onde apareciam soldados em meio a uma vasta floresta de seringueiras, colhendo látex em grandes tambores carregados por caminhões e jeeps, como se fossem seringais da Amazônia.

Os migrantes não se davam conta de que isso era apenas propaganda enganosa, pois os cartazes não retratavam os seringais nativos, mas sim, os seringais cultivados da Malásia. Essa realidade seria bem diferente daquela que os extratores iriam enfrentar no Vale Amazônico. Alguns dizeres escritos nos cartazes de Chabloz, mencionados pelo autor Jaime Ferreira:

“O Brasil, insultado na sua honra e compreendendo o dever de lutar pela liberdade do mundo, na guerra de vida ou morte que ora se trava [ … ] É a nossa própria dignidade que está em jogo [ … 1 Mas não só pelas armas podemos e devemos concorrer para o triunfo completo da liberdade humana [ … ] Assim, tanto é soldado o que se alista no quartel, como o que se oferece para trabalhar nos seringais da Amazônia: um é o soldado da caserna, o aviador, o marinheiro; o outro é Soldado da Borracha, herói da Amazônia. Ambos estão em igualdade de condições perante a Pátria … (FERRElRA, 1991, p. 2)”.

No período de 1942 e 1945, não existem dados precisos do recrutamento de trabalhadores que foram transportados para Amazônia. Segundo a Defensoria Pública do Pará, “mais de 60 mil brasileiros foram voluntários de Guerra”, mas a maioria deles era motivada pelas propagandas do SEMTA, que por sua vez, eram bem atraentes.

Portanto, estima-se que 30 mil faleceram na região, vítimas de doenças como malária, febre amarela, beribéri e icterícia, sem contar, do ataque de índios e animais selvagens, o sindicato dos soldados da borracha vem lutando a todo instante em brasília em defesa da categoria.e também tramita no superior tribunal de justiça uma ação de violação dos direitos humanos em prol dos soldados da borracha.

Fonte: Assessoria

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