Professor de Porto Velho lança livro sobre o Forte Príncipe da Beira; pesquisas começaram durante formação continuada

Lourismar pesquisa há mais de uma década o Forte Príncipe da Beira

Construído no período do Brasil Colônia de Portugal, o Príncipe da Beira é o maior forte erguido pela realeza portuguesa fora da Europa. Em sua longa história do Período Imperial, o forte é rico em fatos históricos e revela situações pelas quais se pode compreender as relações sociais, culturais, econômicas e militares daquele período. Após 12 anos de pesquisas, o professor Lourismar da Silva Barroso vai lançar o livro Real Forte Príncipe da Beira: Ocupação Oeste da Capitania de Mato Grosso e seu Processo Construtivo.

O livro é fruto de sua dissertação de mestrado, concluído neste ano. Professor do estado desde 1997, Lourismar graduou-se em história pela Universidade Federal de Rondônia (Unir) pelo Programa de Graduação para Professores do Estado de Rondônia (Prohacap), entre 2000/2004. Sua formação foi acrescida, ainda, por especialização em arqueologia da Amazônia, cursada na Faculdade São Lucas em Porto Velho e, desde 2004, dedica-se à história regional.

O mestrado em história, realizado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS ), faz parte do Programa de Formação Continuada da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) de Rondônia.

Nesses 18 anos de profissão, Lourismar atuou em apenas duas instituições: Instituto de Ensino Fundamental e Médio Carmela Dutra e, atualmente, Colégio Tiradentes da Polícia Militar onde desde 2004 leciona história regional para 16 turmas do Ensino Médio. “É muito bom ver os meus ex-alunos como mestres e doutores. E isso é mais um motivador para continuar evoluindo intelectualmente”, destacou, ao lembrar que o professor não pode ficar estacionado no tempo. “É necessário crescer do ponto de vista do conhecimento”, pontuou Lourismar ao lamentar que, infelizmente, muitos professores, por diversas razões, param de estudar.

A PESQUISA

Livros, muitos livros. Viagens, várias viagens. Foram uma constante nesses anos de pesquisa, segundo o professor. “Dos quase 12 anos de pesquisas sobre o Forte Príncipe da Beira, os últimos dois anos foram dedicados ao estudo bibliográfico e visitas ao Arquivo Público de Mato Grosso, em Cuiabá; e ao Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, locais onde passei vários dias pesquisando e fotografando documentos oficiais que descrevem fatos importantes do Forte”, citou Lourismar, lembrando os momentos mais difíceis e gratificantes de sua pesquisa.

Documentos oficiais, arquivados em Cuiabá e no Rio de Janeiro, foram estudados e analisados para dar sustentação ao livro, afirmou Barroso
Documentos oficiais, arquivados em Cuiabá e no Rio de Janeiro, foram estudados e analisados para dar sustentação ao livro, afirmou Barroso

Por conta de suas pesquisas primárias, foi possível fazer novas descobertas e enterrar alguns mitos sobre a história do Forte. Lourismar consultando as obras de vários autores, suas bibliografias sobre o assunto, descobriu que a construção do Forte teve início em 1776. Entretanto, após analisar documentos oficiais, essa informação cai por terra. “A preparação do local para construção foi no ano de 1775 e a pedra fundamental foi colocada em 1776″, afirmou, citando que o terreno foi limpo e preparado 13 anos antes do início do funcionamento do Forte, inaugurado em 20 de agosto de 1783. Construído com mão de obra escrava, durante 13 anos, o projeto arquitetônico do Forte foi alterado diversas vezes, conforme documentos encontrados.

Os acontecimentos na caminhada do mestrado mudaram as ideias iniciais e fizeram surgir o livro, segundo o professor. “No início, meu projeto de mestrado era sobre os índios guaicurus de Mato Grosso. Mas o meu professor Marçal Paredes sugeriu que eu fizesse minha dissertação sobre o Forte Príncipe da Beira, pois além de eu já ter pesquisado muito sobre o assunto, havia muitos aspectos históricos em aberto e duvidosos”, pontuou Lourismar.

Ele conta que até neste momento não pensava em fazer da dissertação um livro. Para o professor, o que fez da pesquisa acadêmica um livro em potencial foi a qualidade e a quantidade de descobertas. “Quando as pesquisas são robustas e relevantes do ponto de vista material, com documentos que mudam a compreensão de um fato, de uma história, é natural que se pense numa publicação”, ressaltou Barroso, afirmando que ainda assim, com todos esses indicativos, não tinha convicção de publicar um livro sobre sua pesquisa. “Eu só tive a convicção de que deveria publicar após vários incentivos da minha colega professora e mestre, Daniele Brasil”, apontou.

O FORTE ONTEM E HOJE

O pesquisador e professor Lourismar Barroso lembra que o Forte Príncipe da Beira, além de ser o maior construído por Portugal no Brasil, também era fundamental para proteger as fronteiras e as riquezas naturais. Segundo ele, o Vale do Guaporé foi uma região riquíssima em ouro, local onde os bandeirantes exploraram durante décadas. “Na época da construção do Forte, os escravos já não eram o produto mais rentável, mas, ainda assim, eles e os nativos formaram a maior parte da mão de obra usada durante mais de uma década de construção”, destacou.

De acordo com Lourismar, muitos escravos eram fornecidos pelos próprios militares que serviam no forte, os chamados escravos de ganho. O professor estima que, no auge do Forte, mais de 800 pessoas viviam no local e centenas morreram em sua construção, principalmente de malária. Enquanto a Espanha colonizava a Bolívia, e o Brasil era colonizado por Portugal, o Forte tinha papel importante na região. No período da seca, o rio Mamoré, nas proximidades do Forte, ficava quase seco e, com isso, a travessia era realizada a pé, aumentando o risco de contrabando de produtos brasileiros para o outro lado do rio que pertencia à Espanha. Atualmente, o Forte Príncipe da Beira conta com mais de 80 militares para sua conservação e preservação. A 17ª Brigada começou neste ano a restauração da parte interna do Forte e depois fará da parte externa.

LIVRO PARA QUEM?

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“Evidentemente, o livro é para todos que têm interesse pela história do nosso País e, sobretudo, da nossa região. Espero que nossos professores de história possam utilizar o meu livro em suas aulas, pois ele apresenta um conjunto de informações importantes para a compreensão da nossa história, principalmente de Rondônia e região”, ressaltou Lourismar ao destacar os públicos de sua pesquisa.

Segundo ele, durante esses anos de investigação, encontrou outros aspectos históricos de Rondônia, os quais serão publicados em livros, alguns já em fase final. “Outros dois livros estão a caminho, e espero publicá-los logo após este”, disse ao falar entusiasmado dos próximos capítulos da história rondoniense.

“A conservação do Palácio Presidente Vargas, antiga sede do Governo de Rondônia, é um exemplo de restauração e conservação do patrimônio histórico”, afirmou Lourismar ao destacar a beleza do agora Museu Palácio da Memória Rondoniense. Segundo ele, o estado é rico em patrimônio histórico, mas é necessário maior investimento e diálogo entre as autoridades públicas a fim de zelar a nossa memória. “Faz-se necessário não apenas a conservação, mas um trabalho para explorar melhor o turismo e as belezas naturais de Rondônia”, reforçou.

METODOLOGIA

Uma preocupação do professor Lourismar é o método de ensino. Segundo ele, caso não se tenha um modo criativo e interessante de ministrar as aulas os alunos ficam desinteressados e o conhecimento não se transmite. “Tenho preferência por aulas em locais onde presenciamos materialmente a história, onde os fatos se concretizaram”, ressaltou, ao descrever sobre os métodos utilizados para ministrar as aulas de história regional.

Ainda segundo ele, as aulas em locais históricos apresentam correlações com o presente. Outro aspecto que ele também trabalha é a educação patrimonial. “É importante para o aluno que ele saiba os motivos pelos quais devemos zelar pelo nosso patrimônio histórico, e essa conscientização se realiza na adolescência”, afirmou, ao lembrar que o cidadão que preserva sua história é aquele que obteve uma educação para tal.

Seguindo no âmbito da metodologia, Lourismar lembra que ainda que se tenha o melhor método de ensino, o professor precisa estar motivado, animado e entusiasmado com aquilo que ele transmite e produz. “Por isso que quando estou em sala de aula realizo aulas temáticas, onde me caracterizo de personagens que foram os protagonistas do período histórico ao qual estou me referindo”, disse ao falar sobre o poder da vibração do professor para motivar os alunos durante as aulas.

SERVIÇO

O livro Real Forte Príncipe da Beira será lançado no dia 23, às 19h30, no auditório do Instituto Federal de Rondônia (Ifro), Campus Calama. Contendo 204 páginas, o livro será vendido a R$ 45.


 

Fonte
Texto: Fabio Arantes
Fotos: Chapinha
Secom – Governo de Rondônia

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